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Mama-zônia – Verdadeiros relatos imaginados sobre realidades ficcionais
Categories: Editorial

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O grande rio Amazonas foi uma revelação espanhola para o mundo, sabendo-se que os fenícios já navegavam por essas águas, bem como outros deltas de rio como o Parnaíba aonde deixaram escrituras nas pedras, estabelecendo relações e comércio de forma amistosa, muito antes. Bem como os nativos e nativas que já habitavam por aqui. Sua entrada foi “descoberta” em 1500 por Vicente Yañez Pinzon. Percorrido pela primeira vez pelos europeus desde os Andes no Equador até a grande foz do já nomeado Grão-Pará em 1542 por Francisco de Orellana.

A viagem de Orellana, Colombo, Cortez, Cabral e muitos outros aventureiros, formam o encontro mais surpreendente da história humana, marcado pela incompreensão do outro e início de um extermínio e êxodos em escalas inimagináveis. O século XVI veria o maior genocídio de todo planeta. É a conquista da assim chamada América, que anuncia e fundamenta a nossa história presente. É o momento que finalmente somos todxs parte de um todo, o globo, e simultaneamente tão estranhos que não nos reconhecemos ao menos como espécie. “O mundo é pequeno”, diz Colombo (“Carta rarissima”, 7.7.1503).

No trajeto pelos rios dentro do “novo” continente, vão sistematicamente renomeando rios, regiões, acidentes geográficos. Criam a lenda das Amazonas que ouvem falar pela primeira vez no peru (falam até das lhamas que só existem naquelas outras terras), para marcar a inusitada bravez de suas habitantes. Os muitos ataques são certeiros nesses locais já bem povoados, muitos totalmente destruídos ou com seus habitantes espalhados pelas selvas e rincões. Relatos contam de léguas de assentamentos humanos, aldeias com milhares de pessoas: “uma típica aldeia Comagua poderia ter de 900 a 3600 habitantes, 60 casas de no mínimo 3 famílias nucleares e máximo 60 pessoas” (“O povo das águas”, Antônio Porro, pg. 83/84) sobre as várzeas amazônicas e os Omaguas, índios que viviam ao longo do rio amazonas à época da colonização.

Totalmente esvaziados, os que restaram atingidos em corpo e cultura pelas doenças brancas e escravidão totalitária, finalmente mutilados com a febre da seringa no final do século XIX e princípios do XX, a consequente vinda de outros povos, seguida da exploração petroleira precoce nos anos 40, a farsa do trabalho missionário nos anos 50 que os conduz a finalmente catequizarem-se; e por fim a febre do petróleo nos anos 70. A seringa, matéria-prima natural para a indústria dos carros, pneus, é substituída pelo plástico sintético, fruto do petróleo. Vão se formando os “equatorianos”, “peruanos”, “colombianos”, “brasileiros”, assim divididos ao sabor dos óleos e riquezas de outrem, todxs a falar as estranhas línguas européias, consumida junto aos novos produtos que chegam: espinguardas, rádios, tvs, banheiros, prostíbulos. A bauxita, o ouro a pecuária e mais recentemente a soja do mundo parece abrir um caminho definitivo nas matas, direto para os macnuggets do planeta.

A civilização, a industrialização e o desenvolvimento interfere em cada forma de agregação anteriormente desenvolvido autonomamente pelas culturas milenares. Deslocamento forçado para áreas de confinamento, áreas de “reservas protegidas” pelos missionários, 80, 90% de seus territórios originários, inoculando-os com vacinas e tornando-os “domesticados”, pacificados.

A história que vamos contar através de uma personagem que refaz o famoso “Caminho de Orellana” em busca de sua descolonização, busca novos encontros de mundo, ao navegarmos por essa era dita “moderna”, no intuito de reativar o poder bravio, a rebeldia e a digna raiva de nossos habitantes originários.

segue…

Parte I

Em Quito, no Equador, durmo em uma rua chamada Orellana, arrepios me percorrem toda vez que leio esse nome pelas ruas do bairro. Foi daqui dessa montanha que o conquistador decide partir. Medito por três dias seguidos sob a observação de Tumbaco, uma região indígena próxima onde hoje chega-se por rodovias. Não sei mais o que me move pois não sei o que encontrarei, busco aquela Outra perdida, devorada por caẽs, ama, guerreira, aquela parte de mim que é ancestral mas que hoje mestiça e enbranquecida parece ter apagado. Posso dizer que parto em busca de minhas raízes, minha história que como “Americana” tenho que descobrir por meus próprios pés, ou refazê-la em puro espírito de indianidade.

Decido refazer o “Caminho de Orellana”, re-conquistar a minha ancestralidade. Mas ao fazer aquele trajeto encontrei um mundo ao revés. Não sou recebida por tribos brav@s, guerreiras Amazonas como encontro nos relatos dos brancos, e sim por povos submissos, adoecendo, atingidos por um messianismo ainda latente, muito comum na era da TV e seus presságios de fim de mundo e redenção, percebo que sem dúvida, é o fim de um dos mundos.

Desde a cidade de Quito, a única forma de se chegar à cidade de Coca onde iniciarei meu trajeto fluvial é em um veículo petromotorizado, de combustível fóssil, poluente e de cara produção, em um espaço mínimo que não se esticam nem as pernas. Percorro essa primeira parte por petroestradas em que veículos correm em alta velocidade em direção oposta. Aterrorizei-me por 10 horas seguidas até chegar à cidade formalmente conhecida como Orellana, na Amazônia equatoriana. Neste veículo não paravam de entrar pessoas querendo papéis em troca de produtos. Chamam esses papéis de dinheiro e parece que há casos em que mentem e matam pessoas e animais por eles. Preferi não carregá-los comigo. Um dos produtos que queriam me “vender” é um que passam em sua pele para remediar os efeitos nocivos dos petroveículos. Se chama protetor solar. Me explicaram que os gases soltados por esses incômodos transportes causam na mamãe-terra um aquecimento maior do que o normal, e com isso doenças como o câncer de pele. Ao invés de parar de produzir estes veículos preferem lambuzar-se com esse creme sinteticamente cheiroso e para isso têm que produzir mais papéis. Só os que possuem papéis podem ter o direito de se proteger, mas mesmo assim não param de poluir, nem procuram uma forma mais sensata de se proteger de seus próprios danos.

Já estava faminta quando paramos em um local chamado restaurante. É aonde cozinham para aqueles que têm papéis. A comida não é plantada, vêm de longe, envolta em petroplásticos. As opções são somente variações de animais petrotransportados. Parecem não dominar a horticultura. Mesmo com um rio imenso ao lado também parecem não dominar a pesca, comem basicamente bois, vacas, porcos e frangos, petrotransportados como eu desde longe, congelados numa outra máquina contaminante. Apesar da petroignorância generalizada ainda existe alguma solidariedade – consegui alguns restos de comida – depois de selecionarem as melhores partes para os seus gordíssimos animais domésticos.

Ao voltar para o chamado ônibus, um arrepio me contorce, deve ser aquele alimento gorduroso que comi. Preciso defecar mas não vejo pela janela uma mata isolada. Ao falar com o motorista ele me diz que é impossível parar. As pessoas me mandam para um compartimento com uma espécie de vaso com água, que pelas minhas observações tenho certeza vai parar em algum rio. Um “ajudante” me abre a porta e espera do lado de fora, não há privacidade alguma. Não quero maltratar mamãe-terra, papai-rio, não é o que esperava… tudo me contorce, começo a suar. Cago no chão do banheiro e não contenho minhas lágrimas de desespero e horror.

Após chegar em Coca sorrio ao ver um pouco de mata, mesmo não sendo mais nativa. Uma lancha me leva por 10 horas à uma cidade chamada Nueva Rocafuerte, a última parada do Equador. As pessoas não distinguem cascas de frutas, alimentos orgânicos de petroplásticos e vai tudo parar nos rios. É desse mesmo local que tiram sua água e seus alimentos, impregnados de óleo e substâncias tóxicas, parecem ser dedicados à uma forma lenta de suicídio. A entrada da mata mais parece uma outra cidade qualquer, ninguém quer percorrê-la a pé, têm pressa, querem utilizar ao invés dos remos o petromotor. Nelas carregam enormes quantidades de petroplásticos, garrafas com líquidos coloridos. Me surpreendo ao vê-los bebendo desse líquido azul, laranja, preto e borbulhante. Depois de consumí-lo arrotam como doid@s.

Nesse lugar, fronteira com o local que chamam de Peru, as frutas escasseiam, encarecem e não há mais folhas, nem sucos. Quanto mais mata aparece, menos frutas… é tudo muito estranho…. as pessoas parecem viver do quanto podem enganar uns aos outros, adoecê-los com comidas petroplásticas pois tudo é instantâneo, colorificado, enlatado. Dão muito valor à embalagem petroplástica, acreditam no que ali está escrito. Se conformam em obter tudo que vem de longe pois parece que não se planta nada aqui. Ao lado dessa cidade temos o parque Yasuni, aonde parentes escolheram viver em isolamento voluntário. Negam-se a idolatrar coisas inúteis, matam aos invasores petroleiros, missionários que os causam primeiro terror e depois tentam convecê-los a ir para uma “reserva”. É errado tentar por um fim a um processo desumanizador como este?

Uma canoa de 1 hora e meia me leva à cidade de Pantoja, primeira cidade “peruana” de meu percurso, logo após o parque. Também militarizada, como todo local de “fronteira”, marcação criada pelos homens brancos, assim como os códigos de entrada e saída de lá, mesmo não sendo a terra deles. Parece que toda área antes denominada missão virou um pelotão militar, evidenciando o processo sofrido. Nessas zonas predomina um nacionalismo agressivo, que justifica um cheque em branco para os gastos de defesa e segurança.

Me surpreendo pois a situação da comida é ainda pior, isso num país que criou bionaturalmente milhares de espécies de milhos, feijões, inhames, batatas (no século passado existiam mais de 3000 espécies de batatas no peru, e hoje só 4 são comercializadas) e agora só comem frango, arroz branco e macarrão. O tédio, o sedentarismo e a obesidade é visível. Observo como esperam chegar os grandes barcos trazendo produtos embalados lá de longe. Me entristeço quando os vejo jogar sacos petros gigantes de lixo no belíssimo rio Napo. Um líquido negro vaza constantemente da lateral desse velhíssimo e enorme barco enferrujado e barulhento, não sei se são dejetos químicos ou fezes humanas, provavelmente os dois. Os banhos que tomei ali naquele rio pelas tardes rosadas nunca anteviram tamanha insensatez.

Em Pantoja, aonde aguardei por uma semana um barco, que só fazia aquele trajeto uma vez por mês, pelas noites todxs se juntam em frente a um objeto petroplástico reluzente que emite sons e brilhos que imitam a vida dos humanos. Assistem a algo que chamam de esportes, uma espécie de competição, parece que é um componente integral do comportamento humano, todos querem ser o melhor, têm seus ídolos. Na petrotv choram e modificam seus corpos para serem “os melhores”. Enquanto alguns ali pulam (serão verdadeiros?), na vida real centenas sentam e comem na frente da máquina de ídolos. Não há diálogo entre as pessoas neste momento, parecem estar mais interessados na vida da ficção do que em seu vizinho, seus problemas e soluções comuns. Parecem hipnotizados. Todos têm características físicas de índios mas perderam toda sabedoria ancestral, limitam-se a imitar o que vêem no quadriculado sonho acordado, não mais percebem o mítico sonho de seu próprio sono. Esta deve ser uma das “drogas legais” das quais ouvi falar.

Ao contrário da opy, lugar de troca de histórias entre gerações indígenas, encontramos muitas igrejas chamadas de evangélicas. Só em uma pequena rua de 8 casas de Pantoja são 3 dessas igrejas. Falam de um deus único, ignoram a vida animal, vegetal, assim como chamam aqueles que amam aos do próprio sexo, ou que têm outra religião, de “homens desviantes”. São jocosos com estes e raivosos com a sensualidade. Cobrem toda parte do corpo possível e acumulam papéis que se transformam em grandes templos, carros, banquetes, barcos, piscinas, canais de rádio e TV, exclusivos para aqueles que têm dinheiro e se comprometem a doá-lo para eles mesmos. Assim como os jesuítas que chegaram junto aos colonizadores para abençoar todo o karma negativo acumulado pela matança generalizada, desprezando a diversidade, e sendo incapazes de coexistir com outros sistemas de crenças. Percebo que os sistemas que clamam pela eliminação de povos e culturas inteiras, com o fim de satisfazer uma visão pura do mundo, são aqueles que professam uma extrema religiosidade e que propõem a segregação racial.

Mais um dia inteiro de lancha e dormimos num lugar chamado San Isidro. Nesta cidade, ouço falar dos “bagunceiros do Putumayo” que chegam à cidade trazendo um pó branco que distribuem aos jovens, principalmente meninas com quem querem passar a noite. São outras drogas “ilegais” mas que entram simplesmente de uma outra forma ali, tudo circula-se com muita naturalidade, com o mesmo volume de papéis do que as “legais” que descubro serem bebidas alcóolicas em embalagem contaminante, cigarros sintéticos, produtos refinados como sal e açúcar e petrotvs emburrecedoras. O grosso da produção vai para longe, mas parece que matam e desvirtuam culturas originárias para isso, me surpreendo quando me oferecem uma dessas substâncias por ali, a chamam de cocaína, mas nada lembra a planta sagrada que lhe originou, a coca. Descubro que muitas das drogas “ilegais” são variações de nossas plantas sagradas – papoula, coca, marijuana – e as legais, artifícios sintéticos que tornam as pessoas aceleradas, estúpidas, bestificadas, parece que isso ajuda no ritmo de trabalho intenso que têm que ter para criar papéis do nada. Ali também descubro que muitos missionários são também bagunceiros e perigosos. Além do amor pelo papel e pelo pó, não parecem gostar de outros seres e querem deliberadamente exterminá-los.

Mais uma metade de dia na lancha e percebemos que estamos chegando em Iquitos, algumas edificações grandes começam a aparecer, muitas com uma grande chaminé ao lado com uma fumaça negra 24 horas por dia. São o que chamam de indústria, crêem, pobres, que isso os traz algum benefício, mas esse “des-envolvimento” realmente não os envolve, preferem papéis à saúde. Aparecem também megaprojetos de extração de óleo e gás do fundo da terra. Nada disso é utilizado para o bem viver das pessoas, para a comida ou o lazer, são para a produção incessante de petroprodutos, muitos a serem simplesmente enviados a outro país sem nenhum usufruto da população local. Outros meramente para serem utilizados como descartáveis (embalagens, copos plásticos, canetas, celulares). É a chamada obsolescência programada que é amplamente estimulada pelos chefes, patrões, patrocinadores e bancos mundiais cujo relacionamento com as pessoas é somente por papéis, nunca afetivos, são títeres como aqueles da TV.

Tomo um baque ao ver a entrada da cidade, a maior deste caminho até agora. Lixo por toda a parte, céu nublado e a poluição acumulada pairando no ar, um cheiro terrível e ácido. Uma enorme quantidade de fábricas cujos dejetos parecem ir direto ao rio, pela quantidade de peixes mortos ao redor. Quase não há carros na cidade e milhares de motos triciclos ajustados para caberem 2, 3, 5 pessoas, parecem poluir menos o ar mas compensam no barulho infernal. Já não ouso beber a água que até então consumia da torneira, até na grande cidade de Quito. Agora tenho que comprar petroplástico e o próprio líquido sagrado embalado neste para poder me hidratar. É comprar ou morrer.

De Iquitos para a tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru são mais dois dias de barco, não há cercas ou geografia distinta entre os lugares, mesmo assim tenho que ir a dois “escritórios” me fazer visto. Aqui circulam muitos papéis distintos, são reais, pesos, dólares… comemos mingau de milho e aveia no barco e nos serve um rapaz com modos de menina. Muito bonitx elx. São duas noites neste barco e no andar de baixo não termina nunca uma música altíssima mas sem nenhum instrumento musical. Todo lixo do barco é varrido ao grande rio-mar. Me apavoro ao pensar no fim desse rio e a poluição acumulada.

Antes de sair temos que carimbar papéis chamados de vistos, é como uma permissão que tenho que ter para circular entre os lugares, uma ponte imaginária que só alguns podem cruzar. Não vejo as pessoas do local preocupadas com esse fluxo, não sei o que decide a entrada e saída de alguém desse lugar, mas parece que o lugar em que nasceu e o quanto carrega de papéis é o que determina. Assim me digo brasileira, apesar de ser de Abya Yala e me “deportam” pois não tenho “documentos” que provem o que digo que sou. Me levam ao lado esquerdo da ponte. O rio aqui parece muito seco, o atravesso sobre uma lama rachada de seca. No país chamado Brasil começo a ser oferecida um líquido preto adocicado, parecem ser viciados nele e chamam-o de café.

Precisa-se de muito mais moedas aqui do que nos outros países, deve ser um país muito rico apesar de perceber alguns dos mesmos problemas. Os traços de índios vão se misturando aos de brancos, negros e vivem mais do que todos na frente da petrotv. É o rio mais largo que vi e me lembra o mar. Se chama Solimões. Me falam de botos, seres da floresta e vejo algumas plantações nas várzeas. Bebo outra bebida forte e escura mas esta deliciosa, se chama açaí e me dá uma energia tremenda, como com farinha de mandioca, finalmente um gosto familiar… Tenho que fazer algo que chamam de trabalho para poder estar aqui neste caríssimo barco. Não planto, faço cortesias em troco de papel. E o preço do alimento é marcado por eles mesmos, por isso como pouco. Uma pessoa passa a me dar ordens e verificar tudo que faço: a hora que como, o lugar que durmo, a roupa que uso, o modo que falo, sem nem mais tempo para apreciar o sol nascer ou a lua encher, a vida é medida num pequeno aparelho que levam no pulso e chamam de relógio.

Chegamos à beira de um grande lago negro onde muitas pessoas moram em grandes casas na água chamadas flutuantes. Com uma grande canoa chego à cidade de Tefé. Beirando as margens desse belíssimo lago, valas enormes de dejetos humanos são jogados diretamente na água, parece que atravessam todo o subsolo da cidade. Montanhas e montanhas de lixo ao lado do chamado esgoto acompanham a visão dessa minha chegada. É uma imagem realmente chocante. Tenho que comprar água petroplastificada no berço das águas… ou então, como quem não têm papéis, envenenar-me com cloro para “tratá-la”… Como chegamos a esse ponto?

Um sol muito forte me machuca a pele, mas não há árvores para sombrear a cidade. No meio da selva uma cidade petroasfaltada, petromotorizada, petroenergizada mata seus habitantes. Nesta cidade cercada de tanta água, banhada por um imenso lago negro desfazendo o marrom do amazonas, me surpreendo com o número de carros e motos num local que só se chega de barco, ou avião – o reconheço pelo barulho ensurdecedor.

Resolvo investigar mais esse tal de petróleo que parece mover o mundo. Descubro que um acordo foi feito entre quatro grandes empresas para dominar as fontes mundiais do líquido negro. Minha ancestralidade sempre apontou a necessidade de deixar o que é morto abaixo da terra, mas os homens brancos decidem por fazer o contrário dos ciclos naturais, travam guerras e na surdina promovem táticas de terrorismo para sustentar o seu vício pelo vil óleo. Ocupam territórios e financiam países para confrontarem seus vizinhos. Construiram toda uma rota de oleodutos, portos, embarcações atravessando selvas, mares, todo tipo de ambiente e continente. Parecem ignorar que o petróleo é um recurso finito, superpoluente e tóxico provocando danos irreversíveis à natureza. Insistem que uma ou duas dessas chamadas empresas distribuam seu produto para todo o planeta ao invés de buscarem formas energeticamente menos dispendiosas e mais saudáveis para viver, desenvolvendo tecnologias próprias a cada local. Assim, não há um projeto para descontaminar o grande lago negro de Tefé e sim começar a explorar petróleo na região. Bem como recentemente em Coari, na vizinhança, começou a exploração de gás.

É época das chamadas eleições – um teatro organizado para que se pense que escolhemos coletivamente os candidatos mas feito de forma anônima, individual, por dinheiro ou favores recebidos, o consenso nada mais é do que uma contagem. Vence o que mais tem dinheiro, dele ou recebido pelos grandes negócios locais, que por sua vez esperam receber seus favores de volta, apropriando-se dos preciosos recursos que anteriormente eram públicos. Assim nunca espera-se o bom governo, a política é só mais um negócio. E dos grandes, pois financiam uma quantidade inacreditável de carros auto-falantes, pessoas tristes carregando bandeiras sob o fortíssimo sol, caríssimos programas de rádio e TV, milhares de panfletos, nada criado por ideais ou desejos coletivos, ainda deixando um estado quebrado e refém das corporações e seus mafiosos.

Também conheço outra faceta da chamada “civilização”, que são os grandes centros aglutinadores de conhecimento a serem aplicados aos grandes negócios. Nas universidades professam justamente isso, o universal, já o local, o que é próprio a cada comunidade é deliberadamente apagado. Os professores vêm de longe trazendo e promovendo seu conhecimento estrangeiro, saberes brancos, ditos “modernos” e não os comunais, ancestrais ou dos anciões e anciãs, verdadeiros sábios por sua experiência de vida – estes parecem ser desprezados por esse modelo hiperjuvenil, centralista, estudam-se os gregos, romanos, europeus, estadunidenses, algum teórico local no currículo?

Aqui também percebo as primeiras favelas, reconheço como o lado oposto da catedral do conhecimento, o curral dos ignorantes, verdadeiro celeiro de solidariedade e resistência. Aqui é óbvio que se tenta matar os sem-papéis pelo ambiente insalubre, pela carência de conhecimento mas também através do alimento escasso. Tudo é caríssimo em seu pequeno mercado local, dizem que a comida vêm de longe, da capital Manaus, apenas a melancia e a farinha de mandioca se produz na região. Outro produto letal muito consumido aqui é a cocaína, dizem que trazido pelo atual prefeito, candidato a re-eleição, sob os olhos coniventes do governador do estado. Têm mais lucro com a droga do que com as cenouras, abóboras ou tratamento da água, porque se preocupar com a saúde da população? E no Estado todos o anos investe milhares e milhares de papéis em saúde pública, levando-nos a crer que realmente esses investimentos na industria farmaceutica, hospitais, pesquisas, máquinas são necessários, apesar de nunca conseguirem solucionar o problema. Afinal, é tudo pela adoração insana ao papel.

Mais dois dias de barco e vejo o rio Negro se juntar ao Solimões. Passam um bom tempo sem se misturar, é bom ver finalmente uma harmonização, isso parece não ocorrer no mundo dos homens que logo se envenenariam ou escravizariam para se sobreporem. No entanto, logo chego à maior cidade de todas nessa minha viagem, conheço os chamados prédios em que as pessoas não mais têm nenhum contato com o solo, a terra, animais, incluso seus vizinhos. Nas casas baixas, de cimento e uma substância tóxica chamada amianto, vivem atrás das grades, têm programas na petrotv que vêem religiosamente dedicados ao culto do medo. Super-fábricas, as chamadas refinarias também chamam minha atenção pela sofisticada engenhosidade de seus mortais megaempreendimentos, todos juntos, zonas de desumanização chamados de polós industriais, zonas francas mas que revelam o grau de desconexão com o planeta água que habitam as pessoas-águas. Leio num chamado jornal da cidade de Manaus que todo um sistema de distribuição de água foi re-modelado para levá-la para lugares que há anos passam pela escassez desse dom comum e abundante por aqui, mas que ainda nenhum político havia dado uma simples ordem para ligá-lo. No meio da mata, uma cidade caótica, caríssima, tristíssima pulsa. Serão seus últimos suspiros?

Começo a entender a febre dos papéis. Nos países chamados democráticos fala-se muito sobre uma tal liberdade, sobre um suposto mercado livre, desregulado. Mas a forma fundamentalista do capitalismo que encontro por toda a parte parece surgir de um brutal parto cujas parteiras foram a violência e a coerção, infligidas no corpo político coletivo assim como em inúmeros corpos individuais. A história do livre mercado contemporâneo – o auge do corporativismo – assim como do passado colonialista tem sido escrita com letras de choque. Não chegam à petrotv os crimes de estado, do mercado, as guerras pelo petróleo, a farsa da competição esportiva global ou por outro lado as resistências em curso, pelo contrário, a realidade sofre uma engenharia reversa, para ser aceita com toda a cumplicidade e alívio pelas pessoas amedrontadas. Assim, nada se fala da guerra pela instauração do capitalismo como ideologia hegemônica, em golpes de estado e matanças, o tema é tratado como guerra ao terror, cruzada, pacificação. Nada se fala sobre a matança e encarcelamento de milhares de adolescentes pobres nas periferias das grandes cidades, a formação de um complexo militar corporativo global, a vigilância ubíqua, o tema é a guerra as drogas. Se uma notícia na petrotv fala de uma máfia de criminosos de colarinho branco posso acreditar que nunca serão presos, se fala de miséria e a dor do desemprego acredito que haverão criminalizações e milhares os presos e presas. Têm fascínio por toda tragédia, crises e catástrofes, principalmente humana, pois assim podem apregoar seu mercantilismo redentor.

Mais um dia e meio dormindo no barco e já começo a sentir esse meio de transporte como casa, seu embalo e ritmo me traz tranquilidade, coisa necessária frente a tanta paisagem distoante. Chego num porto realmente impressionante que me parece gigante apesar da cidade não parecer tanto… Suas garras atravessam o belíssimo e transparente rio Tapajós e ao fim do dia um sol vermelho se põe atrás da feissíma estrutura metálica. Toda uma área de pier foi feita na beira do rio parece que não para se apreciar ao dia e a noite e sim ao vai e vêm de mercadorias. É como uma janela para um supermercado. Me contam que a empresa “dona” da paisagem mais bonita de Santarém foi a primeira a introduzir uma espécie de comida chamada transgênica – um tomate que de efeito colateral perecia muito rápido e foi logo retirado do mercado. Infelizmente não é possível fazer o mesmo com esse porto que mesmo não trazendo benefícios à população pois apenas leva grãos ao exterior parece ter virado o símbolo maior da cidade, tamanho monumento ao descaso com a saúde do planeta.

Ao pesquisar o porto da Cargill descubro que este foi construído por recursos do próprio povo que também está bancando uma série de projetos de “infraestrutra” chamado IIRSA, um plano de integração puramente econômica do continente. Com este plano as empresas podem explorar e transportar recursos naturais e mercadorias. Tentarão construir rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, gasodutos, oleodutos, aquadutos, telecomunicações. Os governos se endividarão para tentar construir essas obras. E em vez de melhorar a qualidade de vida da população somente melhorará os ganhos das empresas transnacionais. Aqui neste país o plano é chamado de PAC, programa de aceleração do crescimento, mas na verdade mais parece uma aceleração de chacinas.

Estão sendo planejadas pelo menos 49 hidrelétricas para a região, sendo que somente neste belíssimo rio, em sua foz, serão 5. Complexo Tapajós se chama. Mas o projeto mais controverso da região é a Belo Monte não sei se para disfarçar a construção de tantas outras ou porque a situação está realmente crítica por lá. Falo com pessoas que moram em Altamira e me contam que a violência simplemente explodiu no local. Muitas pessoas chegam todo o dia por lá na esperança de encontrar um trabalho. Desde os anos 80 tentam construir essa barragem e o movimento indígena sempre a freiar. Até recentemente haviam invadido e ocupado os canteiros de obras e agora parece que bandos armados começaram a saquear as dependências do empreendimento. Um mocorongo me mostra um vídeo de uma mulher dizendo: “Belo Monte vai sair de qualquer jeito” mas ela não revela que 70% de sua energia é para a exportação, para os negócios, assim como o deslocamento de 18 etnias diferentes que sempre viveram no local . O que será mais forte? Custo a crer que estas mesmas pessoas que a deram tanta autoridade agora não a podem contestar… será?

Começo a entender o processo sofrido pelas pessoas. Parece que todos que antes pescavam e tinham seu roçado e comiam um alimento fresco e de qualidade agora recebem “bolsas” para comprar e carregar os petroprodutos. Com essa dependência foi-se o pouco de autonomia e auto-organização que tinham. Não dança-se mais o carimbó, trocam-se mensagens evangélicas pelo celular. A música que literalmente invade todos os ambientes aonde chegou aceleradamente a energia é sobre cachaça, mulher, carro… “Vem com a bunda, vem com a bunda, vem com a bunda”, “A mulher enganou adão, sansão e o lampião”, “Tá abraçado com uma caixa de cerveja, tá namorando com um litro de cachaça” numa clara apologia as drogas e os que mais cantam são crianças e adolescentes, que futuro esperamos deles e delas?

Tomo um susto ao andar de ônibus pela cidade de Santarém e ver uma paisagem lunar, uma extensão enorme de terra montanha acima e abaixo sem uma árvore, pedra, nada, passando no meio de rios, igarapés uma área que parece antes era totalmente selvagem. Chamam isso de terraplanagem é como a terraplanagem cultural que descrevi sendo esta da natureza. Desço do ônibus para ver a placa que há na frente e leio: “Conjunto habitacional Salvação” e do outro lado da pista mais de 100 casas sendo construidas todas em cimento e sem nenhuma sombra ao redor – um verdadeiro inferno. No bairro ao lado vejo muitas casas vazias, terrenos abandonados e à venda. Porque precisam tornar o ambiente propositadamente insalubre e ainda dizer que vai salvá-los? Sua casa OU sua vida. Percebo que não é só a mídia e os políticos que praticam a engenharia reversa, deve haver algo de sádico nxs humanos para perimitir que algo assim, um verdadeiro crime aconteça impunemente. Na cidade todos comentam sobre o empreendimento, inclsuive de como a temperatura aumentou com ele, mas nada fazem.

Continua…

Com remixes de “A doutrina do choque” Naomi Klein,  “A conquista da América” Tzvetan Todorov, imagem http://iconoclasistas.com.ar e fotos oriundas da publicação Hacklab Belém, http://issuu.com/giselivasconcelos/docs/dossie_pub

mapazonia

http://dossie.comumlab.org/?mapa

1 Comment to “Mama-zônia – Verdadeiros relatos imaginados sobre realidades ficcionais”

  1. roberto disse:

    navegando por sites de permacultura, acabei me deparando com esse magnífico zine, e com esse relato sobre a amazonia. Desde já agradeço por compartilhar um relato tão honesto e lúcido sobre o que está acontecendo sobre a mata e a herança maldita da colonização que até hoje está em curso. É estimulante perceber que existem pessoas que exercem seu pensamento e sua voz para abrir portas de entendimento e ação social. Até mai.

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