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MANIFESTO VIII MARCHA CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO

MANIFESTO VIII MARCHA INTERNACIONAL CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO
15 anos de Luta: Seguimos em Marcha

No ano onde intensas crises e desajustes estão sendo desveladas em meio a
profecias que trafegam entre o renascimento da humanidade e o seu fim, a Reaja ou
Será Morta, Organização Política completa quinze anos de luta política radical. Neste momento de crise humanitária em que assistimos os governos planejarem,
executarem e assistirem a morte de mais de 100mil pessoas; do silêncio daqueles que
antes se furtavam a reconhecer o genocídio do povo negro, mas que hoje se
aperfeiçoaram em calar, ainda que continuem falando tanto sobre nós; diante da morte de crianças , jovens e adultos negros vítimas de tiros de fuzil que partem das polícias
de todas as partes do país e do mundo; diante de toda situação de brutalidade,
violência, humilhação e encarceramento desproporcional em que vive nosso povo
desde que chegamos nesse território, nós, da Reaja, seguimos os princípios
cunhados em 2005, com cada vez mais certeza de que o caminho para nossa
libertação será produto de nossa luta coletiva, autônoma e radical.
Nós compreendemos que de George Floyd em Mineápolis, Estados Unidos a Micael
Silva no Nordeste de Amaralina, em Salvador, Bahia, da menina Agatha, no Complexo
do Alemão, Rio de Janeiro ao Sr. Almir Paiva, na Saramandaia, em Salvador, Bahia e
o menino Miguel, em Recife , Pernambuco, de Messias Bolsonaro a Rui Costa, que a
supremacia branca tem nos demonstrado que, independentemente da conjuntura, nós
estamos em condição de não-existência, de não humanos.
Dessa forma, não restam dúvidas sobre a inefieciência das ações governamentais e
programas políticos capitaneados pelo poder branco, que, a despeito de se alterarem
a cada período eleitoral buscando cooptar e controlar nossas demandas, vem se
apresentando como placebo para o povo negro. Somam-se a este quadro,
mobilizações gigantescas que tem sido impulsionadas por organizações perenes, sem
compromisso com as vidas de das pessoas negras e que não possuem a capacidade
de alterar nossa condição enquanto povo.
Sendo assim, seguimos acreditando que nossa luta está para além da conjuntura,
orientando nossa prática para ser um fio condutor que permita a nossa libertação e
reorganização enquanto povo, pois não podemos entregar o nosso legado de luta aos
acadêmicos bem intencionados, aos partidos e as ONG’s, como um caminho
possível.
Em 15 anos da Organização Reaja ou Será Morta, temos estremecido esse clima de
acordo e consenso, essa diversidade cosmética e estética que quer limitar a nossa
trajetória politica, social, cultural, religiosa de luta e que se faz cada vez mais presentena cidade de Salvador. Do lado de cá da ponte, temos assistido toda histeria coletiva
diante do que se chama de avanço do conservadorismo e o medo de parcela de
pretas e pretos de perder seus privilégios – que buscam se igualar a uma classe média
branca -, enquanto a maioria de nós não temos sido agraciados com os benefícios
garantidos pelos subornos e migalhas raciais dos últimos anos, e repetimos em coro:
ou é todos nós, ou é nenhum de nós.
Ao longo desses anos, viemos nos preparando para este momento no qual a guerra
racial se acirra e o genocídio do povo negro atinge um patamar mais sofisticado de
letalidade. Avisamos que dias piores chegariam e hoje sabemos que estamos vivendo
apenas os primeiros momentos, pois a fome, o desemprego e a falta de possibilidades
nos aproximam cada vez mais do caos. É preciso que estejamos organizados em
nossos territórios, articulados e unidos a partir da prática.
Semeamos um novo horizonte de solidariedade e luta autônoma preta através da
prática cotidiana como uma verdadeira estratégia de guerra travada digna e
conjuntamente por todos os nossos aliados do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra da Bahia (MST-Ba) e da Articulação de movimentos e organizações Teia
dos Povos. Enquanto muitas pessoas e organizações, se reservaram a tentativa de
preservar seu bem estar individual, nós andamos de mãos dadas com a solidariedade
preta e proporcionamos alimentação saudável para todos os familiares que compõem
a nossa Escola Quilombista Comunitária Winnie Mandela, além de nossas irmãs e
irmãos privados de liberdade.
O estado, em mais uma tática de genocídio, se negou a prestar os cuidados
adequados aos presos custodiados pelo governo da Bahia. Desta forma, como sempre
fizemos ao longo da nossa trajetória, proporcionamos ao nosso povo aquilo que o ódio
racial direcionado aos nossos corpos e vidas sempre impediu e entregamos cerca de
12 mil itens de produtos de limpeza geral e higiene pessoal para prisioneiros e
prisioneiras do complexo penitenciário da Mata Escura e Colônia Agrícola Penal
Lafayete Coutinho.
Depositamos este ano, como todos os outros de existência da Organização Reaja,
nossos esforços para os irmãos e irmãs encarcerados e aos pretos espalhados pelas
comunidades da cidade de Salvador. Destacamos que estamos em Marcha. Seguimos
marchando para garantir nossa existência, nosso direito a vida e o combate
permanente ao Genocídio do Povo Negro. Estamos na VIII Marcha Internacional
contra o Genocídio do povo negro.
Este ano, decidimos que não sairíamos as ruas como fazemos anualmente. Isso por
sabermos dos riscos que enfrentamos nesta pandemia e da situação de
vulnerabilidade agravada na qual nos encontramos. Estamos cada vez mais nos
preparando para o que a realidade nos exige, de olhos abertos e punhos cerrados.
Apontamos o caminho para o futuro que virá com a preocupação de uma organização
que vem amadurecendo, compreendendo que palavras sem prática e prática sem
fundamento levam ao definhamento político e a impossibilidade da real e efetiva
libertação do povo preto.
Sendo assim, orientamos nossa prática para a nossa gente: construímos escola,
fundamos editora, lançamos discos, livros, jornais e investimos todo nosso amor e
compromisso na construção de estruturas que garantam nossa libertação. A marchanas ruas é parte de nossa luta e representa o resultado e a demarcação de tudo que
acreditamos e construímos durante nossa permanente marcha silenciosa nas cadeias,
vielas, bairros pretos e territórios sócio racialmente apartados. Afinal, nossas ações
convergem a uma perspectiva de unidade preta independente das circunstâncias em
que ela se apresente.
Continuamos afinados com os nossos princípios de autonomia, solidariedade,
compromisso e amor aos pretos e pretas. Neste ano, assumimos a missão de politizar
a morte do menino Micael Silva, assassinado aos 11 anos de idade na comunidade do
Nordeste de Amaralina, acolhendo a demanda da família para provar que Micael foi
mais uma vítima da brutalidade policial do estado da Bahia, sendo morto e
criminalizado, assim como tantos outros casos em que somos abatidos e que nós
acompanhamos nessa trajetória de luta contra o genocídio do povo negro. Neste
caminho, tomamos a linha de frente em uma campanha internacional de apoio aos
indivíduos encarcerados na cidade de Salvador, Bahia, que se iniciou no dia 19 de
março de 2020 e com a qual seguiremos até que se faça necessário.
Estamos reafirmando nossa ancestralidade. Seguimos lutando em diversas frentes.
Estamos reafirmando nosso compromisso e nossa solidariedade negra. Estamos
construindo e escrevendo nossa própria história, cunhada por mãos pretas.
Estamos em Marcha.
Seguimos em Marcha.
Contra o Genocídio do Povo Negro, Nenhum passo atrás.
Salvador, 22 de Agosto de 2020.
Organização política Reaja ou será morta, Reaja ou será morto.

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