/// . Baobá Voador .
A pandemia e um portal

Arundhati Roy fala das crises dentro da crise e de como um mundo ja esta sendo criado por nacionalistas e grandes corporacoes, e como devemos passar por esse portal de forma diferente, deixando coisas para tras e de como a  luta pelas politicas se torna mais importante do que nunca. Estamos correndo para a nosso encarceramento digital. Aplicativos na India estao sendo baixados de forma recorde. Novas formas de dominacao x velhas formas de brutalidade. Exodos estao ocorrendo no pais, e a mesma brutalidade, uma humilhacao permanente com as pessoas.

De como o virus funciona como um raio-X expondo as doencas mais profundas de um pais, expondo seu racismo, suas injusticas.

E de como precisamos passar por esse portal de forma leve, com a habilidade de deixar para tras ideias velhas.

Existem duas imaginacoes. O topo de uma montanha que filtra a agua quando chove regando toda a planicie abaixo, plantacoes etc. E uma outra que quer destruir esse topo de montanha oara explora-la como minerio. Como podemos chegar a inteligencia dos antigos que dizem que devemos preservar essa montanha? Porque vamos ter que lidar com isso em algum momento, quando faltarem os recursos naturais. Vamos ter que lidar com isso no futuro, e inevitavel. Mas como mudar a forma que pensamos hoje?

Como a terra foi dividida em dois, policiada? Como as pessoas foram explusas do campo e forcadas para ir pra cidade e policiadas?

Como reconectar com a terra?

Essas questoes, devemos desenlacar como desenlacamos a um tecido, com paciencia e cuidado. Sao milhares de decisoes que foram tomadas erradas, sobre cada uma das hidreletricas por exemplo, que a solucao poderia ter isso outra. Entao temos que desenlacar essas decisoes tambem de forma permanente e meticulosa.

Agora mais do que nunca temos que sentir o outro, lutar a luta do outro. Proteger a todxs.

A escrita para Roy e uma forma de pensar, uma forma de nao perder a sanidade.

Sobre a situacao da Kashmira fala que foi fechado militarmente em agosto do ano passado de uma forma nunca vista antes no mundo, por meses. Estavam comecando o processo de abertura quando veio a Pandemia. Militares no mundo estao totalmente despreparados para esse momento,  nao e possivel uma guerra com distanciamento social entao a forma que a compressao no corpo funciona vem complementar os “lockdowns”. Os pobres estao fisicamente ainda mais comprimidos. Milhares de pessoas nas favelas de Mumbai sao espremidas num pequeno territorio, 200 pessoas para um banheiro, que possibilidade de “lockdown” existe ali? O que acontece e que a maquinaria que quer digerir Kashmir no corpo da india nao parou, nao ha possibilidade de parar. Milhares ainda estao presos.

Imani traz a questao das prisoes. De como nos EUA e o lugar que mais tem encarceirados no mundo. Roy comenta que a pergunta sobre as pessoas que estao presas ali a faz raivosa, na India tambem as prisoes estao cheias, e mais e mais pessoas encarceradas agora mesmo enquanto falam.

Sobre novas formas de protesto. Fala das conversas, como a que estao tendo. Como entender a situacao que estamos seria um primeiro passo.

Segundo, ela ve a conexao feita entre democracia e eleicao como a coisa mais estupida que ja aconteceu.  E como votar pelo inimigo. Mas o resto do tempo, o que fazemos com o tempo em que nao estamos votando?

Fala que a pendemia nao vai durar para sempre e que precisamos pensar nessa vigilancia digital. Outro exemplo e que antes da Pendemia nos EUA Bernie Sander falava muito sobre Medicare for all, e porque ele nao foi nem pensado como uma alteranativa viavel por la?

Fala sobre estar na India e as decisoes brutas tomadas pelo Primeiro Ministro e sobre a psicologia que faz com que as pessoas se “ajoelhem” para um cara como aquele.

Imani diz que essa pergunta e muito importante para a passagem por esse portal: como se desconectar daqueles que o dominam?

Fala tambem sobre algumas mudancas que viu em pessoas por exemplo que eram totalmente contrarias ao Medicare for all nos EUA e que hoje ja falam sobre considera-lo possivel.

Falam sobre a extensao do estado policial, Imani falou de um exemplo nos EUA de uma pessoa que foi presa porque saiu a rua e Roy fala que na India as pessoas sao mortas por isso, apanham na rua ate morrer, paralelo ao encarceramente de muitos jovens, principalmente Muculmanos.

Imani pergunta sobre os “bodes espiatorios” de usar a pandemia para disseminar preconceito contra os asiaticos, como e feito com os negros. Como responder a esse medo?

Roy responde que na India isso acontece contra os Muculmanos. menciona termos que estao sendo usados como Covid-Jihad, Bombas-humanas e como pessoas tem sido atacadas, linchadas. Hospitais recusam a atende-los. Conta como teve um caso de uma mulher gravida que foi ao hospital e foi agredida, bateram nela ate perder o bebe, e de como foi forcada a limpar “a sujeira”. Roy fala que temos que nos colocar no meio a isso, contar, escrever sobre essas historias.

Perguntada sobre sua maior inspiracao para a resistencia Roy fala que foi o movimento anti-barragem na India. Que vivem numa forma de guerrilha no centro da India, na floresta e que metade deles e formada por mulheres. Diz que o melhor “produto de exportacao” da India e o dissenso. E de como as pessoas naquele momento entenderam o que significa a globalizacao, a privatizacao e tudo que ela escreve e fala vem dessa sabedoria coletiva.

Fala sobre a recente lei de Cidadania na India em que 20 milhoes de pessoas ficaram foram da lista (a maioria muculmanos), mas que ela tambem viu uma explosao linda de protestos, estudantes, mulheres, muitas pessoas irem p rua e isso a encheu de esperanca, mas como que nesse lockdown aproveitaram para pender muitas das pessoas que foram consideradas lideres nesse protesto.

O patriarcado continua atuando com forca quando deixa as mulheres em lockdown ainda mais vulneraveis e tudo amarrado nessa linguagem de guerra. E de como devemos usar esse momento para ver as doencas sociais dos paises.

Imani fala da contradicao que e usar a metafora de guerra num momento em que estamos doentes e precisamos de metaforas de cura.

Roy fala que essa e a primeira pandemia e que estamos todos conectados por esse sistema digital e em que nao ha evidencia, provas, as TVs inundadas de opinioes sem comprovacao e o perigo que e essa amplificacao do medo, de corporacoes mediando a comunicacao, de politicas de “copiar-e-colar” paises, como por exemplo bater panelas nas varandas como na Italia se na India nao ha varandas? Ela fala que as vezes sente que nao e uma pandemia e sim uma “panic-demia” (uma epidemia do medo).

O pior sendo as pessoas irem ativamente buscar formas de se auto-controlar, baixando aplicativos que podem espiar uns aos outros. Alimentando o maquinario da policia com essa informacao. Tornando a sociedade um lugar ainda mais perigoso. Reconhece que em alguns paises estao acontecendo metodos mais solidarios, mas que em paises que sao trao frageis as pessoas deveriam ser mais cuidadosas.

Falam da alegria. Imani pergunta como sustentar a alegria neste momento. Roy responde que nao e possivel, que a alegria e algo efemero e que nao devemos esperar por ela, que e uma ideia que foi de alguma forma vendida na TV mas que nao funciona assim, que nao pode ser possuida, nao vem de forma permanente, vem e vai, e por isso e tao especial. Pode servir como uma ferramenta do que e bom para voce como individuo. Diz que essa alquimia de sentimentos, sentir e deixar fluir na escrita uma dor que pode ser muito profunda, eh a alma de seu trabalho como escritora de ficcao. Imani comenta que talvez essa ideia de se desviar do desconforto seja uma ideia muito localizada aonde esta (EUA) de uma burguesia do mundo. A ideia de sustentar um sentimento versus a ideia de coisas e distracoes e confortos podem ser relacionados a uma certa ideia de alegria. Roy fala de como o humor esta sempre presente, mesmo em situacoes como estar no meio da floresta indo fazer uma ocupacao (em referencia ao movimento de resistencia as barragens que ela participou), mesmoem um momento tenso tudo pode mudar.

Isso faria parte desse viajar leve, evitar essa torre de verdades falsamente permanentes.

Terminam falando sobre a percepcao de Imani sobre os textos de Roy de que sao pos-ideologicos no sentido que nao reinforca posicoes binarias sobre os fatos que simplesmente esta ao lado das pessoas. Ela fala que mesmo seus textos nao-ficionais sao escritos com o cerebro da ficcao que nao consegue ter uma resposta unica para nenhuma situacao. Sempre um complexa negociacao, sempre o contar de uma historia que ve tudo ao redor, que mostra uma cor atraves de varias cores.

A mensagem final e a de que essa pandemia e um portal e que pessoas ja estao preparando o pior tipo de solucao para os problemas que estamos vivendo, “solucoes” que vao aumentar ainda mais a desigualdade, que vai ferir ainda mais o planeta, vigilancia, humilhacao de pessoas, humilhacao ao espirito da raca humana. E que nao podemos aceitar viver em vigilancia eletronica.

Aqui o texto original que incentivou essa entrevista com a editora da escritora

Arundhati Roy: ‘The pandemic is a portal’

 

 

 

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