/// . Baobá Voador .
Permacultura e Descolonização

“Nós, anthropos, quem habitamos e pensamos nas fronteiras com consciência descolonial, estamos a caminho de desprendernos; e com o fim de desprendermos necessitamos ser epistemologicamente desobedientes.” Geopolítica da sensibilidade e do conhecimento – Walter Mignolo

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No dia 12 janeiro de 2012 iniciamos nossa residência no ipê. Iniciado como um laboratório de mídia tática em 2004, da metareciclagem aos grupos de estudos livres hoje estacionado na rua jogo da bola, 24, Morro da conceição, Rio de janeiro. Ali residimos num galpão de aprox. 60m2 como coletivo Baobá Voador com a proposta de praticar a permacultura como um cotidiano sensível à descolonização.

Por descolonização entendemos como uma sensibilidade de mundo fronteiriça, em desobediência epistémica, desprendendo-se das teorias e fazeres do mundo que se apresenta como “moderno”. Uma corpo-política, em oposição não somente aos desígnios globais mas ao sistema-mundo proprietário, programado por Elxs. Nos juntamos às pessoas de cor, imigrantes, mulheres, todas as pessoas cujas experiências de vida, memórias, línguas e categorias de pensamento foram substituídas por outras.

Segundo o argentino Walter Mignolo[1] é um novo modo de pensar que se desvincula das cronologias estabelecidas pelas novas epistemes ou paradigmas que não são universais, nem sequer globais – moderno, pós-moderno, altermoderno, ciência newtoniana, teoria quântica, da relatividade, etc. Não que esses pensamentos estejam alheios ao pensamento descolonial mas simplesmente deixaram de ser referência para nossos pensamentos e fazeres, impregnados de sensibilidades fronteiriças, descolando-se tanto de sua alternativa capitalista quanto de seu oposto a comunista, criando categorias de pensamento que não se derivam da teoria política e economia européia. Não é um pensamento primitivista, ou pré-moderno, é definitivamente não-moderno.

A permacultura é outro exemplo de cultura de resgate. Conceito originário da austrália, também um dia colônia, resgata práticas aborígenes de convívio integral e respeitoso com a natureza com bioconstruções, reaproveitamento de água, respeitando o ciclo de interdependência entre os humanos, seus modos de vida e a mãe-terra. Neste sentido os dois conceitos – permacultura e descolonização – são análogos, cosmovisões de vida insurgentes, nativos, híbridos. No entanto o que temos visto se popularizar no Brasil é a permacultura elitizada com cursos de valor altíssimo, impossibilitando a apropiação de quem mais precisa. E o mais grave, utilizando conhecimentos ancestrais da bioregião ameríndia esquecidos com o avanço da cultura ocidental.

Ipê

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Dividido entre um galpão, uma casa de dois quartos e duas áreas livres, chegamos ali com a casa de cima decretada interditada, o piso cedendo, muita infiltração de água, vestígios dos quase 100 anos de idade do Palácio das Águias. Inicialmente não tivemos outra opção a não ser cozinhar ali enquanto não planejávamos la otra cocina.

Durante o tempo que ficamos por lá, convivemos com um outro casal de residentes-moradorxs. Fizemos algumas práticas de cozinha coletiva, com várias pessoas que vieram nos visitar. Vivemos ali durante 1 mês e 9 dias. Como auxílio financeiro recebemos uma bolsa de r$300 do coletivo ipê, que arcou com as nossas despesas nesse período. Recebemos frequentemente visitas de dona nazaré “carola” que toma conta das casas de sua vizinhança, o galpão onde habitávamos inclusive. Foram muitas pessoas que passaram pelo portão aberto por ela na rua de baixo, funcionários da prefeitura, do tráfico e da ordem terceira.

A região onde está localizado o ipê também é conhecida como zona portuária. Desde 2010 vem sofrendo modificações profundas, como remoções da população já antes excluída, repressão contra as ocupações e também desocupações, como aconteceu com a Flor do asfalto, devido aos megaprojetos de “revitalização” do porto, transcontinental que ligará os oceanos atlântico e pacífico para escoamento de “mercadorias”, além dos eventos copa e olimpíada$.

O barulho das britadeiras, tratores e veículos pesados é constante, noite e dia, sem parar. O desconforto pra quem ainda vive no local é muito grande, além de serem reféns de todo processo, sem condições de opinar sobre os projetos, apenas assistem a tudo encarcerados em suas “casas”, cercados de concreto que absorvem a energia solar todo o dia liberando em nós um calor constante durante a noite.

Em plena guerra – megaeventos, políticas públicas, conivências que modificam os espaços em implosões como as bombas em explosões – bioempregos terceirizam seus pedreiros, todos jovens alistados. Os navios não páram de chegar, são transatlânticos de luxo diários, guindastes para obras e containêrs, plataformas de petróleo queimando dia e noite, flutuando no horizonte, e ao fundo a ponte Rio-niterói, quase sempre engarrafada. Bares e cabarés de 20 reais a hora.

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No início organizamos as composteiras para tratarmos do nosso lixo orgânico. Preparamos alguns canteiros com serragem, algumas ervas (cariru, boldo, capim limão), mudas de abacateiro, ipê roxo, mamão e sementes de cobertura verde para preparar a terra para uma futura horta. Levantamos uma cobertura para praticar a cozinha coletiva na parte baixa do espaço utilizando uma lona de outdoor reciclada. Além do fogo a lenha passamos a utilizar com muita frequência o forno solar, em cozidos diários de mandioca, inhames, abóbora, batata-doce e comum, beterraba, quiabo, feijão e pão. O sabor do alimento solar é ressaltado, sem precisar da adição de sal, além de serem mais nutritivos pois não perdem seus nutrientes na água, são cozidos integralmente.

Tentamos praticar um experimento de geração de eletricidade com a bicimáquina, utilizando um suporte para bicicleta, alternador e um jogo de polias que acelerou a rotação do gerador, no entanto o mesmo estava muito danificado, resultando um peso enorme no momento de transferência da energia gerada. Precisamos aperfeiçoar o modelo, que estará residindo no ipê permanentemente, disponível para quem quiser tentar. Fizemos um experimento com banheiro seco, utilizando um garrafão de água como reservatório, pintado de preto e exposto ao sol o dia todo. Montamos um lab de germinações – vida, não à cultura da morte programada – de onde colhemos muitos brotos de linhaça, trigo, feijões e lentilhas. Organizamos um grupo de estudo em permacultura e descolonização (próximo encontro dia 9 de março, com filme e debate) onde conversamos sobre a proposta de utilizar o espaço para atividades, cursos de permacultura, praticamos yoga e conspiramos – não por – mas em um mundo diferente.

<< A descolonização em curso próprio, a cada amanhecer de um novo experimento, em ligacões energéticas mais naturais. >>

Por fim fizemos reformas em janelas, portas, almofadas, pinturas e desenhos. Todas às sextas assistimos filmes, cineclube baobá, onde o filme era decidido na hora e assim vimos kiriku, el topo, guerreiro do lixo, pwonikaski, cronicamente inviável, entre outros.

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ipÊ
árvore, interface
reprogramamonos
abajo
por la tierra
que sumiu do vale do silício, onde nos re-encontramos, aqui
nessa vizinhança

mas aqui, aqui no morro, no centro, na cidade, na futura sede, ex colônia, capital imperial, mundo novo, aqui não há mais desejo de interação virtual por computadores como aquelas forças que formam uma etnia – o olho, o tato, o olfato. uma comunidade é um núcleo autônomo, se basta, no entanto vive apanhando, perde sua força mais vital sob as luzes da tv, dos esportes, procedimentos burocráticos, carnavais onde se recria (?) toda. suas microguerras contra o militarismo ora privado ora estatal, expandem-se para o campo da ciência, educacão, urbanismo, bombas de mediocridade e individualismo. o campo da cultura perpetua a exploração.

o ip que começou na lapa há 8 anos tinha como norte um espaço comum de trabalho e convívio, que era a chave de tudo. quase não haviam reuniões, tamanho fluxo de ações contínuas e independentes, tudo muito solto, cada um desenvolvendo seu próprio trabalho naquele espaço público: aprendizado com o linux, trabalhos de net-arte como mimoSa, grupos de estudo, encontros. Hoje uma “ocupação” desocupada, cheia de recursos e espaços de ação mas com muito poucas pessoas convivendo, sem interesse por compartilhar, nem idéias, livros, filmes, sem acordos sobre os princípios do espaço, apenas táticas temporárias (projetos). É claro existem exceções. Mas nesse sentido necessariamente estratégico, a proposta de uso para moradia foi cada vez mais pungente, paralelo a um afastamento de pessoas com propostas mais políticas, remanescendo somente aqueles que dispunham de uma pequena bolsa oriunda de um projeto enviado ao cnpq. A idéia do evento do dia 3 foi não somente chamar as pessoas a re-ocuparem o espaço como a re-afirmação dos encontros presenciais como predominantes, mais legítimos ao espaço público da “lista de discussão”, já que uma outra dinâmica existia no dia a dia da casa, independente do espaço virtual.

O que nunca imaginamos é que justamente o evento de reinauguração do ipê acabaria sendo o de despedida do galpão.[2] Alguns dias após deixarmos a casa recebemos a visita de um grupo de mulheres que ao se sentirem confrontadas, rapidamente chamaram seus amigos para respaldá-las, com armas. A exigência: colocar uma pessoa morando no galpão, uma senhora que vimos algumas vezes perambulando pelo terreno. A comunidade do conceição nos descolonizando: “a ordem somos nós”. E assim passamos uma semana preparando a estrutura para a nova reconfiguração – a casa acima com o circo akrata residente torna-se um centro cultural punk-anarquista, permanecendo como local das atividades mais cara-a-cara. Optamos assim pela descentralização das redes, re-ocupação de novos espaços, inclusive os públicos do morro como as praças vizinhas. Ip, de novo, ramifica-se. Neste dia também soubemos que vários outros espaços do Morro da conceição também foram desalojados para abrigar funcionários das obras do porto Maravilha, como a escola de informática.

Resgatamos Franz Fanon para compreender esse momento histórico de reafirmações territoriais colonizantes no que na perspectiva moderna chama-se imaterial, mas que em nosso descolonizar observamos como a quarta guerra mundial, como preconizada pelos zapatistas: onde o alvo seria o próprio planeta, não apenas sua população majoritária (os expropriados), mas também seus territórios e recursos: toda a natureza. O povo contra seu próprio povo.

“Nos territórios coloniais, o proletariado do povo colonizado é o mais mimado pelo regime colonial. São esses elementos os partidários mais fiéis dos partidos nacionalistas, e que por esse lugar privilegiado que ocupam no sistema colonial, constituem a fração “burguesa” do povo colonizado”(Os Condenados da Terra)[3] – que diz – quando éramos amadores, estudantes, cientistas experimentais tinhamos um coletivo, agora institucionalizados nossos fazeres, o que somos? Nossas práticas dão conta da autonomia material e epistêmica com que trabalhamos, das pessoas com quem queremos viver, nos misturar? Nunca aos excluídos, mas desde acá! As contas acumulam-se sem fim, e projetos intensos (como o lab de cartografias) são abandonados simplesmente por intrigas pessoais, “porque não queremos mais passar por isso”, isso de receber o outro, ser o outro, ouvir o outro e finalmente sermos nós, em dissonância criativa.

Baobá segue voando, por outras terras, sem cultura própria, habitando esse terreno abaixo, uma vida subterrânea, densa, em plena renovacão.

Mais fotos aqui: http://fotos.midiatatica.info/gallery/main.php?g2_itemId=3044

Notas

[1] http://eipcp.net/transversal/0112/mignolo/es
Geopolítica de la sensibilidad y del conocimiento: Sobre (de)colonialidad, pensamiento fronterizo y desobediencia epistémica, de Walter Mignolo

[2] Dia de Saturno @ ip http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2012/02/504422.shtml

[3] Os condenados da terra, livro de Franz Fanon disponível para download aqui
http://www.4shared.com/file/196558713/67c5da10/_2__Fanon_Franz_-_Los_condenad.html

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