/// . Baobá Voador .
Diálogo sobre os sistemas do mundo – Articultores, Buenos Aires
Categories: Editorial, Espaços

Conhecemos a proposta dos horti-guerrilheiros argentinos Articultores http://articultores.net em 2010 através da internet e percebemos muitos pontos de convergência entre nossas práticas como coletivo (Baobá Voador). Meditando e remontando às origens, temos aproveitado em propostas coletivas e individuais de diversas formas energéticas disponíveis como fornos solares, banheiros secos, hortas em espirais, bicicletadas, vegetarianismo, espiritualismo, assim como pequenos rituais: o plantio e cozimento do próprio alimento, uma relação diferente com os materiais e processos originários que estão ao nosso redor e que temos que criar situações cotidianas para viver – como descobrir sobre ervas medicinais, aprender seu cultivo, imaginar mandalas para hortas, conhecer suas estações, nossas relações estelares e populações nativas. Uma espécie de alquimia do cotidiano.

 

Em diferentes espaços pelo brasil (numa okupa em Belém, nas ruas de Pipa – Rio Grande do Norte, nas terras de parentes em Goiás e no Rio de Janeiro, em espaços de permacultura), experimentamos alternativas fora da lógica consumista e mercantilista que nos é internalizada, tentando encontrar formas de resistir à essa engrenagem sistêmica falha, de forma mais natural e direta. Acreditando sempre nessa busca pela ancestralidade como auxiliadora na compreensão de nosso presente, colaborando com nossas idéias e individualidades coletivas, re-encenamos os relatos que nunca acharemos nos livros de história. Não se trata de um ingênuo retorno ao passado, mas uma re-criação de nosso presente sob modos de vida mais coerentes com os novos tempos de crise e insurgência.

 

O primeiro integrante do coletivo chegou em Buenos Aires no dia 15 de abril, e foi recebido por Judith que apresentou o espaço e outras pessoas que colaboram com os Articultores. Foi logo ajudando a fazer uma instalação hidráulica que garantiu o nosso banho durante o período que ficaríamos por lá. No bairro de Once, centro da cidade de Buenos Aires, os Articultores conseguiram um espaço enorme, de aproximadamente 400mt2, cedido pelo governo e aonde reside o projeto. Neste local anteriormente abandonado, ainda muito precário, reúnem-se pintores, artistas gráficos, engenheiros, pedreiros, químicos, horticultores e ativistas de software livre. De forma autônoma, tentam restaurar o local e aos poucos vão refazendo a rede elétrica, transformando quartos abandonados em ateliês e os espaços abertos em hortas urbanas, fazendo cerveja caseira! Numa mistura muito interessante de disciplinas, convivem em um mesmo ambiente na tentativa de transformar a cidade. Todo ano recebem artistas visitantes durante o verão e recentemente começaram a produzir um programa de rádio (http://www.ivoox.com/activate-programa-n-1-articultores-audios-mp3_rf_634898_1.html).

 

No meu primeiro dia na casa, uma oficina de redes livres era tocada pelo coletivo Buenos Aires Libre http://www.buenosaireslibre.org onde ensinavam a montar suas próprias redes comunitárias, paralelas à internet. São metarecicleiros e utilizam todo tipo de tecnologia low-tech e reciclada, antenas em lata e computadores descartados. Na oficina aprendemos sobre a importância da produção de conteúdo próprio e praticamos a confecção de antenas receptoras em canos-embalagens de vinho.

 

De cara percebemos que haviam muito mais articulações, projetos e coletivos do que imaginávamos, apesar de aparentar ser um país culturalmente homogêneo em que predomina a cor branca, com poucos indígenas e negros, pelo menos em Buenos Aires. Nos disseram que muitxs negrxs foram mortos durante a Guerra do Paraguai. Notamos muitos êstencils e grafites a favor do governo e indagamos alguns argentinos da questão: parece que antes da geração Kirchner o peronismo predominava de forma tão arrasadora que o país dividiu-se em 2 partidos onde só um ganhava. O país um dia igualado a Europa em níveis de prosperidade achava-se totalmente empobrecido depois da economia dolarizada. A corrupção era tão ostensiva na geração Menem que chegou a quebrar o país no ano de 2001 quando milhares de pessoas tomaram as ruas da capital. Quando Kirchner ganhou, não foi difícil realizar algumas mudanças essenciais como no sistema de ensino elitista (hoje todxs são atomaticamente admitidos na faculdade ao terminar os estudos secundários sem necessidade de uma prova, inclusive estrangeiros) ou anistia a torturadores que imperava no país – um necessário processo de re-conciliação com o passado que ainda estamos longe de passar no brasil.

 

Realizamos diversas derivas pela cidade, de ônibus e a pé – a tarifa de ônibus e metrô é muito barata, cerca de sessenta centavos para ônibus e 1 real o metrô. É muito fácil e barato circular por Buenos Aires. Conhecemos outras residências autogestionadas como La salla, uma ocupação punk de 7 anos que oferece diversas atividades culturais como capoeira angola. Mantiveram uma horta comunitária, horta orkasmica (há 3 quadras do local) onde umas 300 pessoas resistiram até que foi desalojada http://orgazmika.blogspot.com. Visitamos também um horta coletiva do bairro de Saavedra http://www.lahuertadesaavedra.blogspot.com onde estava acontecendo uma reunião com diversos coletivos de hortas urbanas em Buenos Aires. Ali trocamos algumas sementes e fizemos mais contatos. Conhecemos também coletivos como Projeto 1000×10 http://proyecto1000x10.blogspot.com/ que distribuem sementes em cartões-postais, fazendo pequenas germinações de bolso em quadrado de papel-cartão; Coletivo Abya Yala que desenvolveu uma ferramenta de mapeio de resistências continentais, sendo construída colaborativamente http://www.abyayalacolectivo.com/iirsa

 

A nossa proposta de residência constituiu em pensar num objeto material que significasse as leituras coletivas que faríamos do livro de Eduardo Galeano, As veias Abertas da América Latina, que realizamos com diferentes pessoas no espaço. As leituras versaram sobre como a identidade latino-americana foi imposta por laços econômicos de basicamente duas culturas semelhantes: a portuguesa e a espanhola. E de como foram Simon Bolívar, José Artigas e San Martí os primeiros a pensar a unidade continental sob outros patamares mais solidários. A livre circulação econômica criava os centros dentro dos países conquistados e aqueles a níveis globais. Seriam os novos atores: mestiços, nativos e libertos os que re-criariam a América Livre.

A ideia de “nações livres” era, provavelmente, na época, o objetivo mais importante, pois sem a liberdade, não seria possível a conquista dos outros objetivos. E para isso, Bolívar não foi só um idealizador, e sim, um verdadeiro guerreiro, enfrentando as mais diversas batalhas. Mas ele não estava sozinho nessa luta. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade haviam se enraizado nos povos latino-americanos, pois o que se viu não foi uma luta isolada de Simón e seus fiéis seguidores, foram lutas por toda a América Latina, onde cada região teve o seu “libertador”, como era chamado Simón. O livro pode (e deve!) ser baixado aqui -> http://copyfight.noblogs.org/gallery/5220/Veias_Abertas_da_Am%C3%83%C2%A9rica_Latina(EduardoGaleano).pdf

Outras leituras comparavam Potosí na Bolívia e Ouro Preto no Brasil, explicava o ciclo de exploração reiniciado com o petróleo e plástico início dos anos 70 que causou a imigração de nordestinos para a amazônia, conhecida como a febre da seringueira. Neste processo, revimos êxitos e êxodos, saques e conquistas. Observar o cotidiano de Buenos Aires também contribuiu na compreensão das diversas formas de colonização existentes na latina América. Marcas como Coca-Cola, Claro, Itaú, Esso competem com a decadência dos opulentos edifícios, sendo o alimento um dos itens mais caros de consumo. As frutas e verduras são vendidas em diversos mercados da cidade, mas o preço é bem elevado. Não achamos nada parecido com as feiras de rua que temos por aqui. O alho especialmente, foi um dos itens que mais chamou a atenção, cerca de 2 reais a cabeça. Quando pensamos especificamente no cozimento do alimento, refletimos sobre os trajetos percorridos, as formas de cultivo e o as políticas globais por trás do que consumimos, como a parillada – churrasco – o prato considerado tradicional aqui, para qual cultura? O que somos além de consumidores?

 

Assim, fomos nos inspirando para um estudo do espaço exterior de Once Libre, aonde estão a maior parte das plantas. Idéias iniciais: Forno Solar, horta em forma de espiral, captação da água da chuva. Aproveitar os recursos energéticos disponíveis para resolver problemas imediatos, como a alimentação. No prédio abandonado encontramos a maior parte do material usado na construção do Forno Solar, só nos faltando algumas ferramentas. Adaptamos então o tutorial do cearense José Albano (http://pt.scribd.com/doc/4851691/Forno-Solar) que já havíamos construído em um outro momento (Cibersalão Pipa), todo em caixa de papelão, para utilizar material mais abundante aqui, a caixa de frutas de madeira que pode ser achada em cada esquina de Buenos Aires, bem como o papelão e as sacolas plásticas. O forno pode ser usado tanto para o cozimento de legumes quanto para a desidratação de frutas. Acabamos realizando também uma pequena horta em formato espiral no espaço aberto do edifício ocupado, semeando abóboras, graviolas, cajus e árvores trazidas do Brasil, ao lado de temperos como hortelã e manjericão da horta local e algumas flores catadas da rua, regando a idéia de um jardim comestível. Fizemos também uma germinação de sementes de lentilha para compartilhar o conhecimento e auxiliar na nossa alimentação.

Algumas RECEITAS SOLARES que escrevemos para a revista Articultores #2:

pão de cerveja

algumas colheres de algum cereal (gergelim, linhaça, girassol, castanha, uma mistura deles é o ideal)
250 g de farinha de trigo
uma lata de cerveja

misture tudo até a massa não grudar mais na sua mão, acrescentando farinha aos poucos

coloque a massa numa forma untada e coloque no forno solar pré-aquecido, por no mínimo 2 horas

+
legumes al sol

pequenos pedaços de legumes (batata, chuchu, abóbora, inhame) e grãos (milho, linhaça)
azeite
temperos (salsinha, cebolinha, pimenta-de-cheiro)

não é necessário água

o mais cedo possível coloque ao sol, cozimento em 2 horas, no mínimo

não se preocupe com o tempo exposto ao sol, o alimento não se queima
OBSERVAÇÕES: Horário ideal de cozimento no forno solar: de 8 da manhã as 3 da tarde (mais cedo em regiões mais próximas ao equador); utilize sempre panelas pretas, de material leve e com tampa; média de cozimento dos alimentos – de 2 a 5 horas.

Com esta simples ação esperamos ter causado alguma reflexão acerca das políticas energéticas globais, cozinha natural, cotidiano sensível, reterritorialização continental, contribuindo para o bem-estar de todxs os seres viventes.

 

Agradecimento especial à Judith por nos ter incentivado a vir, e pela calorosa hospedagem.

Galeria de imagens Buenos Aires @ Baobá Voador
http://fotos.midiatatica.info/gallery/main.php?g2_itemId=1697&g2_highlightId=1741

Desenvolvimento do trabalho
http://dev.midiatatica.info/wikka/ArtiCultores

 

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