/// . Baobá Voador .
Resistência imaginária
Categories: Editorial

20 de outubro de 2026. em todos os lugares do rio de janeiro ouve-se o eletrofunk, todos os canais ligados à uma única fonte geradora. no brasil se consolida os tratados euro-nipo-estadunidenses para a pesquisa em solos profundos, em galáxias próximas. não há mais minérios a extrair. a febre do urânio arrasou com a vida de milhares de trabalhadorxs. pessoas andam de máscaras e carregam seus celulares cerebrais. quem tem dinheiro, secretamente carrega sua arma paralisante. uma linha de helicópteros de luxo blindados garante a paz acima dos asfaltos. nas favelas os choques de ordem geraram a mobilização de estudantes e população civil, que criaram um grupo de guerrilha urbana, o ML-8, que ocupou militarmente há 3 anos tdosos os mega-estádios e mega-praças criadas em PPP no rio de janeiro, em briga com todas as esferas de governo. instalando ali o chamado tráfico de idéias, zonas autônomas para a livre troca de conhecimento, objetos e ações cotidianas de plantio, cura, comunicação, educação e cultura. uma vida melhor para o seu povo, enfim.

tudo começara há exatos 20 anos, com a ocupação indígena no museu do índio, ao lado do ex-maracanã, inaugurado em 1962 pelo antropólogo-ativista Darcy Ribeiro. sob um buraco no muro, e tiros, mulheres grávidas, homens, idosxs de 17 etnias diferentes carregam com elxs um papel: a doação de terras do príncipe regente para os índios. tudo ali, e tudo mais que os foram tirados à tanta virulidade e que não mais os pertence, por direito. colocado no encontro do dia 24 de outubro de 2009 como um chamado ancestral para aquele que seria um lugar importante de luta, como fora há pouco, Raposa Serra do Sol, Mato Grosso e Xingú.

ação tão digna, tão própria, que mobiliza todo o continente abya yala nesses dias de olimpíada iminente. foi ali que foi conjurado os movimentos e idéias mais radicais deste nosso território na última década. como seu re-significado, abya yala, e a formação de exércitos de guerrilheiros urbanos que passaram a mapear as ocupações ilegais corporativas, para retomá-las aos seus verdadeiros povos originários. para ser compartilhada com todos aqueles que ousaram viver em harmonia com pachamama. com a copa do mundo de 2014 e as olimpíadas de 2016, todos os poderes (estadual, municipal e federal) almejam terrenos para negociar em nome da “revitalização” da cidade, no caso do antigo museu, um estacionamento para 3000 carros, com o valor de 30 milhões “oferecido” à uma empressa privada espanhola.

infundidos de cosmovisões rebeldes, cariocas criaram suas próprias ocas. esportes indígenas de todo o tipo são ritualizados em frente ao maracanã. Nas favelas-opy tupã e iporã, as hortas e jardins comestíveis geraram uma base vital para o coletivo, estabelecendo redes de trocas com outras ocupações urbanas, trabalhadores rurais, parentes de toda a ex-america. rumando a passos firmes à des-colonialização. as mulheres organizam-se em núcleos de alimentação e educação, princípios naturais, orgânicos, político pedagógicos, que começam a ser apropriados por toda a comunidade urbana.

os anos de 2010 à 2016 foram, sem dúvida, os mais turbulentos e insanos. governos fascistas eleitos, pressão de hi-gienização capital totalitária. a águia bicando as veias abertas de pachamama. novas armas e milícias instaladas. às sub-uzis com que brincavam as crianças viram tratores de demolição em massa. pixam as casas com SHM como pixavam aqueles mercados para morrer de outrora. foi com muita mobilização, autonomia, horizontalidade que os índios sobreviveram na cidade, criando suas próprias táticas de alianças, defesas e intervenções. o apoio de toda a sociedade foi fundamental para a libertação de todxs. o radicalismo dos estudantes só veio corroborar que o sangue indígena de fato corre pelas veias de todos nós, autênticos canibais. usando seus corpos e organização como armas, resistiram pacíficxs.

esta história não tem fim, e um começo muito anterior ao ano de 1492.

“o antigo museu do índio foi ocupado no dia 20 de outubro de 2006 por 35 indígenas de 17 etnias diferentes como forma de resgate dos Direitos dos Povos originários do Brasil. O prédio (…), estava abandonado e em ruínas desde que a sede mudou-se para a Rua das Palmeiras, em Botafogo, e a intenção era reformar o prédio no intuito de transformá-lo em um centro de convergência educacional, de preservação e difusão da cultura indígena. O projeto previa ainda a criação da primeira universidade indígena do rio de janeiro, como forma de prover educação indígena diferenciada (garantida por lei) e ministrar saberes étnicos ancestrais. Como foi noticiado na imprensa, o próprio Ministério da Agricultura manifestou apoio à época, por meio de seu superintendente regional, pedro cabral, para transformar o espaço novamente em um centro cultural.

as etnias representativas do país concebem o prédio, Museu do Ìndio, como propriedade indígena e o ocupam como defensores de Direitoas Humanos, visto que além do projeto de uma Universidade Indígena, o imóvel hospeda e protege indígenas de todas as partes do brasil que chegam ao rio de Janeiro sem apoio governamental ou abrigo que os acolha.

a sustentabilidade dos defensores/ocupantes desse centro de resistência indígena se dá por meio de doações, artesanato e eventos no local. O espaço é entendido pelas etnias indígenas como um local de representação e extensão de suas culturas. no local foi realizado em maio de 2009 o Encontro Nacional de Escritores Indígenas, além de inúmeros eventos e festividades ao longo desses três anos.

a instalação de um espaço próprio para os povos indígenas deste país na cidade do rio de janeiro, destinado à educação e à transmissão de cultura, serve, além de estimular o diálogo inter-étnico e enriquecer saberes ancestrais ao cidadão carioca, urbano e afastado das culturas originárias do Brasil, para dar sustentabilidade ao cidadão indígena que, em passagem pelo Rio de Janeiro, procura o Museu e ao cidadão indígena desaldeado, cidadão excluído das políticas públicas, visto que os Povos Originários já possuem o IDH mais baixo do país – e os índios urbanos, para piorar a situação, estão longe de suas aldeias e de suas famílias.

a presença de Pajés no Maracanã, centro do Rio de Janeiro, oferece alternativas para medicinas alopáticas à população carioca. As aulas ministradas por parteiras, caciques e pajés, trazidos das aldeias, alargariam a percepção cosmológica e cultural dos alunos não-índios e contribuiríam para a conscientização ambiental. A implantação de uma Universidade Indígena favoreceria o aumento do IDH das aldeias, visto que os mais importantes pilares deste são saúde, educação e sustentabilidade.

com a copa do mundo de 2014 e as olimpíadas de 2016, todos os poderes (estadual, municipal e federal) almejam o terreno para negociarem a construção de um estacionamento para 3000 carros, mais um dos inúmeros planos de “revitalização” da cidade. a injeção de muito dinheiro em obras, viadutos, portos, negociando o imóvel do Museu do índio por 30 milhões com uma empressa privada espanhola. ”

cesac (centro de etno conhecimento sócio cultural e ambiental cauieré) 1o. seminário Índios em Contexto Urbano 24/10/2009

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