/// . Baobá Voador .
O Futuro das Sementes
Categories: Editorial

Texto publicado no livro “Ideias perigozas” http://finetanks.com/upload/livro_3_baixo.pdf

“É hora de colocar de novo os pés na terra. Quiseram nos separar dela por paredes, cimento, sapatos e sintéticos, mas fracassaram. Ainda temos que nos alimentar, ainda é a terra, a água, o sol e o ar que provêm nossos alimentos. A comida, nossa conexão com a realidade, agora tem que ser transformada. Não mais as colhemos do solo, as coletamos nos supermercados, sem folhas verdes, envoltas em um asséptico plástico.” La Revolución de la Cuchara (Colômbia)

Até bem pouco tempo atrás, quase tudo era natural. Mesmo com as intensas modificações antropogênicas realizadas por populações indígenas sobre as florestas (o antropólogo Balée estima que cerca de 12% da floresta amazônica seja fruto desse trabalho), há pelo menos 8 mil anos os indígenas de Abya Yala[1] desenvolvem suas “florestas culturais”, agriculturas e manejos que geraram milhares de espécies vegetais, assim como práticas de cura e fazeres manuais, conhecimentos sem “propriedade”, enriquecidos através de gerações, utilizados e desenvolvidos para o bem da comunidade inteira. Assim consolidaram-se muitas civilizações do continente, onde predominava a interação de muitos domínios: espiritualidade, arte, comida, cultura – formando uma sólida cosmologia, que influenciou diretamente a manutenção de suas técnicas tradicionais.

Tanto por seu passado quanto por seus modelos contemporâneos como a poliversa frente contra-hegemônica Zapatista, o fortalecimento de lutas camponesas, indígenas e urbanas, processos de descolonialidade[2] e autonomia de países como Bolívia e México, ou pela política institucional em curso no Equador e Venezuela, refletimos sobre a etnicidade na tentativa de entender como caminhamos dos pajés aos cientistas de jaleco branco, a física moderna preparando o caminho para a essência do pensamento atual: determinismo (Heidegger). Não mais se vive o hoje, e sim, prepara-se o futuro. “dê-me as posições de todas as partículas do universo, e todas as forças que agem sobre elas, e preverei o futuro”(Laplace).

Procuramos através deste debate confabularmos novas relações de poder, re-fundar processos afetivos e autopoiéticos (Maturana) que afirmem o viver bem. Como problematizar as ações das mega-corporações globalizadas e das instituições que deveriam ser multilaterais (lobbies, ONU, FAO), que têm hoje a prerrogativa de determinar o que vai ou não vai ser feito da natureza ? Como re-criar nossas relações com a natureza, nossas culturas? Enfim, que globalização queremos: a que vem se impondo ou a que desde abajo vem buscando outros caminhos?

Práticas como o GNU/Linux – a semente digital originária – que não detém patente e colabora para a difusão do conhecimento. Ou o recente debate sobre propriedade intelectual com o copyleft, bancos de sementes, práticas agroecológicas, permacultura, isolamentos voluntários, boicotes, ações de contestação à produção transgênica e reprodutiva de camponesxs, assim como no campo teórico o ciberfeminismo instaurando o feminismo como crítica à cultura tecnocrática – são pequenos, táticos, no entanto muito importantes passos para o novo desafio.

Com os recentes avanços da ciência sobre o nosso-dia-a-dia através das grandes indústrias do nano, procuramos entender a construção deste sistema-mundo desde um âmbito cotidiano, muito mais amplo e íntimo do que meramente o campo científico ou antropológico. É, sobretudo, um debate cultural, que diz respeito aos nossos saberes e fazeres. Vidas mutuamente excluídas, antecipadas nas telas de TV nossas reações pessoais, criamos no hoje uma idéia de cultura e política sem perceber como o consumimos em nossas refeições, como nos expressamos tecnologicamente ou ultrapassamos os limites estabelecidos por determinada tecnologia, re-apropriandoa, desdobrando-se na criação de nossxs filhxs, definindo assim como será o planeta em que habitaremos no futuro.

Sob quais culturas vivemos?

Das sementes ao plástico, medicamentos, reprodução humana e distribuição de alimentos, por nano-fios e pelo ar, convergindo conhecimentos bioquímicos e a microeletrônica, nos tornamos bilhões de consumidores e produtores submetendo-nos a algumas centenas de bilionárias empresas bélicas, farmacêuticas, petrolíferas, alimentícias mais poderosas do que governos, populações e culturas locais: como Monsanto – antiga fabricante de armas químicas, empresa que hoje abocanha quase metade do setor de sementes transgênicas; Du Pont – antiga fabricante de pólvora, uma das gigantes da indústria química dos Estados Unidos, detentora de mais de 34.000 patentes desde 1804[3]; Bayer, sobrenome de um químico alemão que inspirou a empresa produtora da aspirina, produz toda uma linha de sementes para hortaliças transgênicas, prestes a introduzir o arroz transgênico no Brasil, sob o lema: “Almejar o sucesso: Não desistir, especialmente se surgirem resistências e reveses”[4]; ou ainda a Nestlé “Boa Comida, Boa Vida”, parceira do programa Fome Zero, que desmineraliza águas no Brasil e compra (junto a Coca-Cola) fontes de águas de aquíferos como o Guarani[5], a maior cisterna natural de água doce do mundo, localizado em nosso continente – escolhida como a transnacional mais irresponsável do planeta nas questões sociais e ecológicas (pela conferência Olho Público em Davos, ligada ao Fórum Social Mundial)[6], ao lado da Dow Chemical, Shell, Syngenta e Wal-Mart.

Além de toda pressão pela mudança de paradigma na produção de comida, produtorxs rurais vêm sofrendo todos os tipos de violência como calúnias, perseguições, prisões e assassinatos, enfrentamentos com milícias, jagunços e a mídia corporativa, além dos inúmeros casos de biopirataria[7]. Mesmo o milho, um dos alimentos considerados mais sagrados pelas populações indígenas ao centro e ao sul de nosso continente, altamente nutritivo, sofre ainda contaminações “descontroladas”, como a que aconteceu no Brasil somando à pressão da aprovação dos transgênicos no país[8]. Segundo o jornal Brasil de Fato a Embrapa confessa que existirá em breve “uma contaminação generalizada”[9], sendo que a maior parte da produção que alimenta as pessoas no mundo ainda é feita pelx pequenx produtorx[10]. No entanto, xs únicxs presxs são justamente estxs que têm suas plantações contaminadas, xs que resistem em ações diretas (MST/Via Campesina) ou aquelxs que trocam arquivos pela internet, que vendem cds nas ruas ou criam suas estações de rádio-amadores, utilizando-se das técnicas disponíveis, apropriando, questionando e criativamente recombinando-as, já que na biopirataria corporativa paga-se somente uma multa, normalmente muito mais modesta do que os lucros.

E assim, o mesmo jatinho que jogava o agente laranja durante a Segunda Guerra Mundial por 9 anos matando as colheitas de arroz e causando fome no Vietnã, começa a ser usado repleto de fertilizantes, ajudando a “salvar” o planeta da fome, sob o signo da “revolução” verde através das décadas seguintes. São as biopolíticas desenvolvidas desde os gabinetes das nações unidas e implementadas em escala planetária, recentemente renovadas pela aprovação do Codex Alimentarius[11]. Além do que ingerimos, há ainda a contaminação de lençóis freáticos pela imensa quantidade de resíduos tóxicos. Até mesmo os fitoterápicos acabam sendo manipulados por empresas de distribuição, fabricantes de cápsulas. Já muitos orgânicos são trazidos por longuíssimas distâncias até as prateleiras dos supermercados, persistindo a dependência das pessoas ao modo passivo de consumo e nossa dissociação da natureza. Tornamos o corpo das mulheres um campo de batalha à parte, consumindo cosméticos, cirurgias estéticas, contraceptivos, cesáreas, esterilizações, próteses, abortos clandestinos e extração de óvulos, somado aos anti-depressivos e estimulantes sexuais consumidos por todxs. Uma vez bruxas e operadoras de grandes mainframes, criando lógicas de computação sem computadores (Ada Lovelace), nos dias de hoje, mesmo em comunidades mais inclusivas como a do software livre representam apenas 1.5% das que controlam os códigos[12].

É a derradeira destruição de conhecimentos e culturas tão sólidas que não necessitavam serem registrados em papel ou patentes. Adotando slogans como “o milagre da ciência” e “o especialista global” para justificar as apropriações indevidas de nossos conhecimentos tradicionais, os piratas não mais precisam de armas, vêm em magníficas cópias de folhas verdes. Substituímos nosso leite materno por seus pós.

Segundo Milton Santos, as modificações no campo técnico-científico e informacional teriam criado um momento da história em que um novo modelo de natureza artificializada se instala, mediada e altamente manipulável que se reproduz por esferas distintas construindo todo o nosso imaginário social, adotando modelos únicos de tempo e espaço, unindo sobre moldes capitalistas ciência e produção, legitimada por leis e políticas cada vez mais restritivas (em ações de confinamento, fome, subordinação de corpos, fetiche da estética cirúrgica e da alta tecnologia, proibição de troca de sementes ou material cultural – dádivas comum à todas as pessoas, à própria vida), proibindo a liberdade e engenhosidade como cultura humana, mesmo vivendo em um tempo de abundância com a troca de arquivos digitais, compartilhamento de banda e software livres. Sob uma visão única, a técnica torna-se nas sociedades modernas o mecanismo das relações das pessoas com seus territórios, seres e tempo, dissociada dos cósmicos saberes, suas artesãs originárias e suas potências.

No entanto, este rompimento de nossos modos e métodos naturais, solidários e colaborativos, adquiridos no campo da experiência vivida e coletiva, se mostra ainda mais difícil de resgatar, já tendo sido testadas inúmeras possibilidades de expansão colonial geográfica, bem como ampliadas as limitações do espaço com o virtual, quando apresentam sua invasão desde uma nova fronteira – o espaço molecular. Seres humanos como matérias primas, condicionamento de células nervosas e microprocessadores, uma rapidez incrível de emanação inauguram a era da bio-tecnocracia, que intensifica ainda mais a produtividade através da apropriação das sementes da vida e do controle totalitário de todos os seres, aspectos determinantes ao sentido do compartilhar às produções energéticas. É agora a partir do átomo, do micro, do recorte, que nasce a idéia da biopolítica. Nesta configuração de mundo os princípios de territorialidade coletiva são abandonados, substituídos pela idéia de um grande mercado onde é possível comprar e vender simplesmente tudo.

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REFERÊNCIAS

1 Expressão com que o movimento indígena vem, desde 2004, nomeando o continente chamado América. Consultar Porto-Gonçalves, C.W. 2009. Abya Yala In SADER, E. e JINKINGS, I. (Coordenadores) 2009 Enciclopedia Contemporânea de América Latina y el Caribe. Akal/Boitempo/Clacso, Madrid. 2 Recente categoria analítica que fala dos esforços de superação das problemáticas enfrentadas pela América latina desde a colonização. É um conceito que está sendo formulado por muitos teóricos como Quijano, Mognolo, C. W. Porto-Gonçalves, Arturo Escobar e praticantes como paulo Freire e Augusto Boal. Citamos aqui a pesuisadora Catherine Walsh (2008) que destaca quatro formas de colonialidade: “A colonialidade do poder – se refere ao estabelecimento de um sistema de classificação social baseado em uma hierarquia racial e sexual; a colonialidade do saber – trata do eurocentrismo como a perspectiva única do conhecimento, o que descarta a existência e viabilidade de outras racionalidades epistêmicas e outro conhecimento(…); a colonialidade do ser – é o que se exerce por meio da inferiorização, subalternização e a des-humanização, fetichização do ser humano (…); por fim, a colonialidade da mãe natureza – ocorre ao se dissociar razão, cultura, sociedade e natureza. Cria o impossível, o humano como dissociado da mãe natureza.” A PERSPECTIVA ECO-RELACIONAL E A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL NO ENTRELAÇAR DE AFETOS: A DESCOLONIALIDADE DO SABER COM FOCO NA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL, João Figueiredo http://aric.edugraf.ufsc.br/rest/artigo/32/semFolhaDeRosto/pdf?chaveDeAcessoNaoAutenticado=aeb97e268c98539bd7dbea5cadebd0bacc9fc1b8 / Acesso em 26 FEV 2010. 3 Segundo o site da empresa http://www2.dupont.com/Plastics/en_US/News_Events/article20090716.html Acesso em 26 FEV 2010. 4 Segundo o site da empresa http://www.bayercropscience.com.br/site/aempresa/visaomissaoevalores.fss Acesso em 26 FEV 2010. 5 Segundo o site da Comissão Pastoral da Terra e Centro de Mídia Independente, entre outros http://www.cpt.org.br/?system=news&action=read&id=245&eid=127 / http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/05/254956.shtml Acesso em 26 FEV 2010. 6 Segundo o site da ação Olho Público em Davos http://www.publiceye.ch/en Acesso em 26 FEV 2010. 7 Segundo o site http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI80394-15223,00-HENRY+WICKHAM+O+INGLES+QUE+SE+TORNOU+O+PAI+DA+BIOPIRATARIA.html e Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_Wickham Acesso em 26 FEV 2010. 8 Segundo o estudo de pesquisadores da Fiocruz http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392004000300011&script=sci_arttext e clippings de matérias à época http://www.ecolnews.com.br/transgenicos/trans_historia.htm Relatório do Greenpeace ilustar inúmeros outros casos http://www.greenpeace.org/raw/content/brasil/documentos/transgenicos/sumario-executivo-do-registro.pdf Acesso em 26 FEV 2010. 9 Segundo o site do jornal Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/a-ciencia-segundo-a-ctnbio/view Acesso em 26 FEV 2010. 10 Segundo pesquisa do /ETC Group http://www.etcgroup.org/upload/publication/pdf_file/ETC_Who_Will_Feed_Us.pdf Acesso em 26 FEV 2010. 11 O Codex Alimentarius é um Programa Conjunto da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação – FAO e da Organização Mundial da Saúde – OMS. Trata-se de um fórum internacional de normalização sobre alimentos, criado em 1962 http://www.inmetro.gov.br/qualidade/comites/ccab.asp Sítio do Acesso em 26 FEV 2010. 12 Ada Lovelace foi a primeira programadora http://pt.wikipedia.org/wiki/Ada_Lovelace Dados sobre a mulher nas comunidades de software livre http://flosspols.org Acesso em 26 FEV 2010.

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